FLORES PARA MISHIMA
Poemas escritos entre 2017-2025
CELEBRAÇÃO
Meus pulsos jorram o sangue
Que dá a cor a teus cabelos ruivos...
E estes cabelos ruivos, turvos como o fogo
Derretem a neve formando e coroando
Teu rosto,
Teu corpo.
A pureza do teu pálido e imaculado corpo,
É completada com a profundidade dos teus olhos,
Cuja ausência me deixa louco,
Cuja lembrança me torna um tolo.
E se meu olhar morto
Contempla estes versos igualmente tolos
Será porque contigo ainda tenho um pouco.
E em teu delicado corpo branco,
Contemplei teus olhos lívidos e cheios de medo,
E notei que se não fosse pelo vazio estaria em prantos,
E que em tua angústia buscava uma paisagem calma,
Ao qual me dispus a guiar sem receios.
Depois foi sono, foi angústia, foi morte.
E vi que neste vazio insano,
Estavas tu imóvel e orando.
Mas afogando em ti mesma.
ESPÍRITO
Quero vomitar todas as palavras malditas
Abrir meu ventre com uma lâmina
Uma sacra katana
Inundando este mundo com meu sangue bendito
Repousar morto como uma santa estátua
Mártir morto com os devidos rituais e liturgia
Fazer de minha poesia meu libelo de sangue
Abrindo minha mente com um estrondoso tiro
Ou explodindo o mais alto edifício
Como um vaidoso dândi
Quero me abrir junto aos meus pulsos
Limpando meus pecados com o escarlate líquido
Transbordando como um rio
Como um romano, como um cadáver no Ganges
ABRIL
Estava afogado em um mar de culpa
Depois de ter provado das águas de tua fertilidade
Fui consumido por uma patética culpa
As memórias se tornam turvas
Teu nome volta e meia ainda ecoa por aquelas ruas
Mas estranhamente não me aflige a saudade
Nestas ruas tua forma é de murmúrios
Nestas ruas distantes
Meu corpo ainda deseja tuas curvas
Mas não mais te procuro entre os muros
Que carregam teu nome
Fizemos um acordo implícito e incompreensível
Sem palavras, sem discursos
Sem choros, sem sussurros
Qual será a causa?
Minha falha naquele momento íntimo
Ou teus sentimentos ínfimos?
PALÁCIO
Caem as cinzas
Ao chão igualmente cinza
Dos cigarros caem as cinzas
Numa tarde de horas perdidas
Será que chovia? O céu estava cinza
Fomos ao rio errado
Num mês em que os corações pulavam, agitados
À feira, então? Não, ao palácio! Não, à praça,
os cinco
Planejamos o futuro, reduzindo-o a 24 momentos por segundo
E a 24 horas, 24 dias, 24 semanas, o
postergamos
Meus olhos não caíram, vacilaram, mas não
caíram
Estava frio, cumprimentos repetidos
Rostos rubros e sorrisos tímidos
Gargalhadas altas e planos lascivos
O vento dançava naquele vestido
ZEUS
Floresce Agosto
Tenho medo de te esquecer, isso me encheria de desgosto
Lembro do teu nome, por vezes o confundo
Digo, por deslize, teu nome de defunto
Ainda vives em mim
Mesmo deitado naquele jardim
Tinhas o nome do deus do mais alto panteão
Durante dez anos foste meu campeão
Sempre esteve ali, imponente, contente
Meu guardião, meu primeiro cão
Ainda corres naquele campo de areia, eternamente
Lembro dos teus pelos negros
Do medo que causava com teus passos ligeiros
De quando pulava ao meu peito
Ou quando dormia em mim sem medo
Contigo morreu minha infância
Contigo havia começado minha vida
O quanto chorei quando tiveste tamanha infâmia
De me deixar sozinho
Meu primeiro (quiçá único) amigo
TREM
Um jovem triste em um trem
O jovem triste em um trem poderia ser eu
A vida é com um trem, sempre acelerando, com um rumo
Que não se sabe qual é. Sequer se sabe se somos passageiros ou funcionários
Se somos funcionários erramos todos os turnos
Se somos passageiros dormimos durante todo o percurso.
Desvio os olhos. Não compreendo, mas me fascina... não compreendo.
Imagino que cada vagão é como um capítulo da vida, há os vagões econômicos
O vagão econômico dos planos mal sucedidos, dos pequenos planos, o vagão dos
prantos
Ou talvez os vagões medianos, não, não existem vagões medianos.
Por que? Por que não compreendo? Por que estão me deixando?
Um trem sozinho com um jovem triste em um vagão mediano que não existe.
Posso imaginar que nos primeiros vagões não há planos nem prantos, nem medianos nem econômicos.
Como poderia haver ali um plano? No fim. O fim é o começo e o começo é o fim.
Imagino que neste estão as cargas, as bagagens, as futuras bagagens
Mas ainda sim, me parece bom, calmo e esperançoso.
Feliz e pouco duradouro.
No vagão mediano há um olho
Há um olhar triste, há rostos fechados. Há um repouso.
Mas os passageiros são estrangeiros
Há um olho.
Há um sorriso malicioso.
Há um passageiro tão veloz quanto o trem, um vulto oculto
Ele está desesperançoso. Há um olho desesperançoso.
SAMURAI
Abaixo do sol vermelho
Um corpo cinza, drenado, sem vida
De espírito noturno
Que pelo aço há de ser iluminado
Abaixo das capas, dos mantos
Marchando à compasso, entre planos
Os cavaleiros mundanos
Com a pele pelo sol batizado
Pertence agora a outra raça, maldito
Entrego-te estas flores do mal
Acabarás no mais sinistro sucursal
Que minha presença caminhe contigo, serviçal
Por meio destas rosas malditas
JANEIRO
Os ventos partem, ao sul
Caem as folhas, somem suas falhas, sonhos
Seriam os ventos jocosos apenas solares?
Em Janeiro o sol ilumina como nunca
E minha visão turva apenas consegue ver
O recuo das sombras
E a água ao amanhecer
JURAS
Quero afogar-me no mar
Ao meu juramento honrar
Mantendo-me livre da dissipação
Que surge de ti
Da obliquidade do teu olhar
Prefiro matar-me perante o temor dos teus olhos
Afundo no rio da incerteza
Destas tuas dores
Enquanto te isola
Enquanto te eleva
Nesta quebradiça torre
Enquanto constrói muros ao redor de si e de mim
Enquanto dirijo meu ódio perfeito à ti
Enquanto não sou por ti querido
Morro mas não digo
Morro mas não falo
Vivo mas não sei
Vivo mas desejo
CINZAS DO ARTISTA
Mundo, não foste o último nem o primeiro
Artista, nesta cidade maldita
De escassos desejos
Acaso Lavo tuas feridas?
Agonizaste e morreste, febril
Tuas obras jazem desconhecidas
Tu repousas no Rio
Não o Negro, embora
Os que te enterraram vestissem negro
De tua família ou obra, somente cinzas
Algumas memórias em Londres, distante
Nos subúrbios de alguma torre gringa
VELHO
Adoeceu assim, aos poucos
E de tua boca só saem súplicas, heresias
Te recusastes a morrer no tempo certo, como meu avô,
Tolo
E quem há de ouvir tuas blasfêmias, tão frias?
Estratégias, teias, para que tua existência
Ganhe alguma atenção
Pois teu corpo já padece, com razão
Viverá até os oitenta, noventa, e depois?
Até lá ouvirei teus murmúrios
Insuportáveis lamentos
PAI
Como esquecer as mãos calejadas que tocavam minha fronte
Tua voz altiva, presente mesmo distante
Para mim foste o primeiro augusto
Meu protetor e soberano
Tinhas feições de Júpiter
Quando tua pesada mão me afagava
Quando tua presença me esmagava
Quando com tuas palavras me insultava
Quando ao meu espírito devorava
Da tua essência me deste vida
E mesmo em morte em mim vive
Seja por amor seja por sangue
Não fui teu Pedro
Mesmo sendo teu primeiro
Tive vergonha quando disseram-me ser teu eleito
E nunca senti tanto medo
Quanto no dia que te vi no derradeiro leito
CIGANA
Falaste pelas cartas
Que me acompanhas, com teus olhos ocultos
Por que, então, ficarei sem minha matriarca?
Como entender teus planos
Quando teus passos são silenciosos
Cuidadosamente calculados
Quando teus movimentos são sussurros
Procuro em cada silhueta
Cor e cabelos
Teu prometido rosto
Como te esquivas com tanta destreza?
ANGÚSTIA
Poucas coisas superam
A angústia
De dar a vida a cada letra
Cada linha, cada pensamento
Cada sentimento
Escrever é uma tortura
Uma dolorosa exortação
Um ritual indolor
Sujo
Mas repleto de pudor
Os melhores são em âmago
Repletos de rancor
De fantasias, de amor
São pedaços quebrados
Da alma, deformados
Sonhos abortados
Todo poeta é um maldito
Cuja obra é seu testamento
Que sufoca o mundo com seu lamento
Culpado pelo nascimento
Da tragédia nesta terra
Um louco que finge ser profeta
Anunciando a confusão da vindoura era
Que reflete sua tempestade interna
Viola a realidade com a Beleza
Fecunda o Real com o Belo
Como um misterioso asceta
Como um orgulhoso bárbaro
VIRGEM LUA
Sonhei que te banhavas
Nua, abaixo da pálida lua
No sangue virgem
Ao te admirar, acordei
De susto e de vertigem
Vi tuas silhuetas douradas
Tua pele bronzeada
Pelo sol beijada
E imediatamente quis toca-la
Senti o perfume
Dos teus cabelos
Aroma de jardim, intoxicante
Constante e passageiro
Teus verdes olhos
Inflamam luxúria, desejo
Ganância, Vontade
São convites
Às tuas feições
Teus olhares, teus disfarces
Quando somes
Enlouquece-me por inteiro
DEGENERADO
A tristeza e o fumo
desenham os versos das noites sem rumo,
quantas noites depositei em ti c
omo um cadáver selado ao túmulo.
E agora embriago-me novamente em noites sem rumo,
meu túmulo está vazio, levaste tudo.
Em cada esquina, em cada verso, lhe procuro.
Os pássaros já não choram,
as flores já não têm mais cor,
tudo está consumido pelo rancor
dos ciúmes que sufocaram ao amor.
E se volta e meia volto a ti,
angustiado e taciturno,
fechado como um casmurro
Será porque ainda penso em ti,
será porque a cada rosa vermelha
lembro de quando a vi,
e então derramo-me em tristeza...
Cada nota neoclássica
soa como uma palavra não dita,
maldita... maldita... mil vezes maldita!
E assim vario entre o ódio e a angústia,
entre a destruição e a melancolia,
numa dialética de paixão e repulsa,
de razão e ternura.
COHEN
Um morto de uma linhagem de sábios
Apontava com seu cetro
O caminho dourado
Despejando suas profecias com um violão usado
Ele disse: procure os rosa-cruzes
Deixe que ao seu espírito costurem
Que ao seu corpo enterrem
Naquele misterioso Umbral
Abandone a palavra
Que seu rosto seja tomado por símbolos
Que o Templo seja tua casa
E teu espírito tua derradeira causa
O velho judeu entregou uma rosa
E disse para prega-la na porta
Ao lado do Cristo
Que seus ancestrais haviam cuspido
Ele disse que era um corvo –
Voava e cantava
Mas que deseja tanto ser um tordo –
INICIADO
Último dia profano
Renascerá Iniciado
Pelas 7 velas iluminado
O Pai Celestial será teu amo
Em teu espírito profano
Nasceu a sede pelo conhecimento profundo
Às portas da Ordem, sem sono
Te apresentastes, um forasteiro
Com mente cegada foi, sem rumo
Três vezes vendado, pelos irmãos levado
Cego ao tempo e ao Templo
Na escuridão consagrado e jurado
Levanta-te como Iniciado
Entre homens livres e 7 velas
Entre as luzes
Foste aceito e celebrado
Ao Sul do Pai Alado
IRMÃO
Caminhas agora entre homens livres
Cujos espíritos pertencem à mais alta estirpe
Mas lembrem-se que no sol poente
Reside o nobre coração resiliente
De nosso estimado mártir
Cuja memória entre nós se reparte
Carregarás agora em teu peito
A memória do tormento
E do mais belo sacrifício
Da morte pela fé e pelo irmão
Que a força dos Cavaleiros de Salomão
Inflamem teu coração
Que em teu corpo seja erguido o Templo
Da lealdade como do grande mártir
Através do Tempo
Deste dia até a eternidade
E lembrem-se
Que o desprezo e o esquecimento são
O amargo preço da traição
SHARIE
Em meio ao barulho sussurraram palavras sobre ti
Havia um tumulto sobre ti
Em meio a noite havia um tumulto ao redor de ti
Quantas palavras ouvi
Quantas vezes evocaram teu nome ao redor de mim
Estavas tão quieta
Tão tristemente inquieta
Todos evocaram teu nome
E em teu espírito só havia fome
Teus olhos eram a própria confusão
Tu mesma era a própria confusão
Me entristeci quando me vi
Em meio a um tumulto de palavras sobre ti
Teus olhos se afogavam em incerteza
E digo que vi neles um pouco de tristeza
Que farás triste princesa
Com tua trágica beleza?
Em uma marcha fúnebre desceste as escadas
Imagino se encontrarás paz em casa
Como queria que o mundo se desintegrasse
E somente tu restasse
AMORA
Quando te vi fui beijado por um gosto qualquer de amora
Mas onde está todo aquele amor agora?
Diria eu que desapareceu com a aurora
Diria eu que nós dois já passamos da hora.
Não entendo porque insistir
Se teu maior desejo é desistir
E sendo assim, meu maior desejo é deixa-la ir.
Não posso cobrir teu corpo com ouro
Tudo que posso lhe dar é pouco.
EU
Por que você tem que me dar alguma satisfação?
Não existe nenhuma razão que justifique teu perdão,
Exceto que porque era eu.
Por que eu tenho que lhe dar alguma satisfação?
Que justifique minha falta de razão,
Exceto que porque era você.
Por que temos de dar alguma satisfação?
Para toda nossa falta de razão,
Para todo o excesso de perdão
Para toda a mútua ilusão,
Mútua desilusão.
Talvez porque era eu,
Talvez porque era você.
ROMÂNTICO
Atentado ao pudor
Que belo é morrer de amor
Que estúpido é morrer por amor
Que bom é morrer sem amor.
Por amor, de amor, sem amor, teu amor?
De que adianta sonhar com amor,
Se nunca vamos ter realmente o amor?
Buscar cegamente, loucamente, o amor,
Se perder, engasgar, afogar-se no amor!
E qual será o preço de tanta dor?
Um pouco do teu calor, um resquício do teu louvor
Uma expectativa de ter teu amor
ANARCA
Minha pátria é onde repousa o espírito
Disse aos céus esperando por auspícios
Venham até mim deuses amigos
Tomem meu corpo espíritos benditos
Deixarei que meus cabelos cubram meu rosto
Que meus olhos sejam cegados pelo sol da tarde
Como um rio em pleno verão
Brilhante, limpo e inconstante
Deve ser o âmago do campeão
Daqueles que rogam: morte à Razão
Viva a Morte
Uma louca mulher, consorte
Dos tuberculosos de toda sorte
Que suspiram seu louvor à Morte
BODES
Retratos do Pai Celestial
São vocês, senhores
Cujo amor não há igual
Cuja presença afasta todos os temores
Com seus ares de patriarca
Com a palavra de monarca
Com a sabedoria de profeta
São para nós enviados do Pai Celestial
LEITOR
Quando lemos falam os deuses
Revelam-se por entre as linhas
Seus contornos e rostos
Quando lemos nomeamos os deuses
Pois eles se escondem entre as linhas
Ansiando pelos suspiros
Da agonia daqueles que os veem
Es Denkt in Mir
Disse o velho profeta
Que dançou com os deuses da tinta
Algo pensa em ti
Disseram-lhe os deuses
JOVEM POETA
Arrogância e inexperiência
São o que dizem ser as armas do poeta
Do jovem amante das letras e esteta
Pois não há nada mais odiável
Do que o jovem artista
Portanto, cultivarei o orgulho
Como o fumo e seu plantio
Por entre a fumaça e a tinta
Serei o déspota
Do miserável mundo
Das letras mal escritas
Não ouvidas, esquecidas
Com arrogância e inexperiência
QUARTO
Não ouço mais teus passos
Naquele ritmo arrastado
Nem vejo teus cabelos prateados
Nem teus dentes amarelados
Ouço os gritos
Do teu antigo amado
Confusos, contrários
Ao silêncio do teu quarto
LISBOA
Você me seguiu como um marinheiro
Até os conveses escuros de Lisboa
E gritou como um louco numa masmorra
Para impressionar a mim, teu carcereiro
Você me oprime com teu carinho
Pois quanto desconforto
Reside em ser amado
Sem consentimento
Me sinto acorrentado num navio negreiro
Liberte teu prisioneiro!
SANTO
Tal como o santo
Trazes as boas-novas
Guias estas pobres almas
Que hoje são cavaleiros
Mas amanhã hão de ser barões
Mas que sempre se lembrarão
Que em tua voz fala a razão
Sempre lascivo, sempre pensativo, sempre suscito
Digo, por todo o Capítulo, que não há orgulho maior
Do que ser teu protegido
Nos ensina a paciência de Jó
A sabedoria de Salomão
Catequizas estes espíritos jovens, como um bom sacristão
Que, como ti, bons homens serão
BUDA
Maharatman
Rogou ao Padixá
Guie-me até Durga
Durga não existe mais
Disse o Marajá
Somente Kali
Que só se deitará
Com Kalkin
Leve-me até Yama
Rogou Tathagatha
Aos pés de Sidarta
Abaixo da ponte de Agartha
Ele se esconde na Gruta
Respondeu o Gautama
Onde medita e repousa
Aos olhos de Kubera
No pavilhão silencioso
Erguem-se as vozes em uníssono
Em sofrimento pelo luto
Daquele que contempla o Todo
JACQUES DEMOLAY
O Velho disse
Aos seus nobres cavaleiros
Que o caminho seria estreito
Pois os portões do Paraíso
Só se abrem ao guerreiro
Por entre as muralhas do Acre
Em meio ao odor dos cadáveres
O Velho Mestre disse
Que lhes daria somente a morte
Os cavaleiros lhe responderam
Que beberiam seu sangue
Como prova de fidelidade
Em um cálice de Ira
E nas torres francesas
Conheceram os tormentos
Dos homens fracos e pequenos
Até o dia das chamas serem acesas
Quando a víbora
Emissário dos Capeto
Escravo de seus desejos
Disse com soberba:
Morto está o Filho de França
Nobre cavaleiro da honra
Vítima da infâmia.
MÃOS
As mãos se entrelaçaram
E juntos se esgueiraram
Como gatos entre os telhados
Dos prédios abandonados
Como a lua
Cobrindo o sol
Um corpo repousa acima
D´outro
Numa união alquímica
Com vapores de pecado
Que subiam por entre
Gritos abafados
EXORTAÇÃO
Através da escrita
Saem as exortações
Sejam muito bem-vindas!
Não se distorçam
Nem se acanhem
Nem fujam
Nem se escondam
Minhas flores malditas!
Minhas fragrâncias
Presentes ao terrível
Ao horrível, temível
Deus da beleza!
Minhas flores para Mishima –
DIONÍSIO
Deus é alegria
Que ironia! A tristeza persiste
O que houve, Filho do Homem, por que insiste
Em ser tão pequeno, tão triste?
Deus está morto, por isso meu lamento persiste!
Respondeu Adão, com seu quebrado coração
Enquanto apertava as mãos em angústia
Perdendo-se em súplicas
Ao seu rei desaparecido
Ao trono despedaçado
Coroado pelos pecados
Dos que deveriam tê-lo amado
Como ver as estrelas ou mesmo a beleza
Do teu Cristo crucificado
Quando vives nas trevas
Nestas tão densas trevas
Do templo mortuário
Do túmulo divino
Cujos pagãos, estes ratos
Incendeiam, zombam, dançam
Enquanto tu te calas
Enquanto chora e clama
Ignorando o murmúrio na câmara
Enquanto teu rei morto
Tenta ressurgir e ser posto
Este rei tão bondoso
Sem orgulho, nunca ofendido
CHUVA
O que são as gotas de chuva?
O exaspero das lágrimas
Que brotam do semblante triste
Dos pedintes e seus vira-latas
Que é o sol escaldante?
O esboço da ingratidão
A luz da fascinação
Que são os vagabundos?
Semeadores da discórdia
Do teu perdão
ASTROS
Se escreve por dor ou por amor
Já lhe escrevi com todo meu louvor
Com toda melancolia e dor
Já nos comparei aos astros celestes
Sendo tu minha lua, e eu o sol que te aquece
Já lhe fiz a maior das preces
Escrevi tudo que lhe merece


